Thursday, July 12, 2007

Calimero

Hoje ouvi uma notícia, no seguimento de uma peça que a SIC passou ontem, que a Caixa Geral de Aposentações recusou a passagem à reforma de duas professoras por não considerar que as doenças de foro oncológico com que se debatem sejam razão para o abandono precoce do mercado de trabalho.

Hoje, com mais calma, apercebi-me que uma das senhoras se encontra ainda em tratamento e com a respectiva baixa até Maio de 2008. Acredito, e sei, que a senhora deve estar a atravessar uma fase difícil, que nestas alturas questionamos tudo na vida e só queremos que a fase da quimioterapia passe. No entanto, acho cómico que alguém saiba como se vai sentir daqui a um ano, especialmente quando a ouço dizer que "não se vê capaz de continuar a trabalhar quando a baixa acabar". Isto é o espelho da mentalidade pequenina que abunda no nosso país. Há pessoas que adoram ser os coitadinhos e de se vitimarem pelos azares da vida.

Lembrei-me de uma colega com o mesmo problema, cancro da mama, que se submetia ao tratamento no sábado e vinha trabalhar na segunda-feira. Poucas pessoas souberam disso e foi para mim um exemplo de como lidar com a doença.

Agora imaginem este cenário: um homem de 31 anos, bem sucedido profissionalmente, com um percurso de carreira em ascendente, pleno de força e vigor. Subitamente, e depois de algumas consultas e exames, tem como diagnóstico um cancro. O médico marca cirurgia de urgência, retira-se a raiz do problema mas, entretanto, um TAC nota um ganglio suspeito que apenas tem duas soluções - cirurgia numa zona muito sensível ou quimioterapia.

Do mal o menos, e esse sujeito encara o problema de frente, submetendo-se a 3 meses de quimio, com as consequentes perdas de cabelo, de peso, de côr, enfim, com tudo o que a quimio faz de mal para impedir que o "mal" se propague. Nesses 3 meses de verão, o célebre verão de 2003 onde metade de Portugal ardia, a rotina desse homem apenas era interrompida pelas idas aos hospital e os dias na marquesa, falando com companheiros de infortúnio e deixando as horas passar, sentindo o liquido entrar nas veias e os vómitos a aparecer.

Mas nunca deixou de trabalhar. Como dizia o médico, ocupar a cabeça com coisas fora da doença é o melhor a fazer. Há que distrair e nisso o trabalho é fundamental. Bastava o olhar de pena com que alguns colegas o brindavam, a voz tímida com que lhe falavam, mas todos reconheceram a coragem de nao deixar que a doença lhe alterasse a vida.

Por isso revolta-me esta notícia. Revolta-me a cultura do coitadinho de mim, que ninguém me liga. Revolta-me a cobertura que a comunicação social dá a estas pessoas quando centenas são diariamente tratadas em dezenas que hospitais neste país. Revolta-me a mensagem que passa para as crianças que lutam contra o cancro e que vêm nestas pessoas um sinal que não há vida depois da doença. Já bastam os casos que não têm hipótese por incúria ou desconhecimento, pela cultura de não ir ao médico e deixar andar, até que seja tarde de mais.

"Cabe a nós, os sobreviventes" - como escreveu Lance Armstrong - "mostrar ao mundo que muito depende de nós". Na fase de diagnóstico, ao ir consultar um médico ao mínimo sinal de alarme; na fase da terapia, acreditando que é possível ganhar esta batalha. Na fase depois da doença, dando o exemplo aos outros que estar lá não é fácil mas pode ser ultrapassado. E sentir o prazer em cada dia conquistado desde o fim dessa batalha.

2 comments:

Dias... said...

Absolut Respect pelo miudo de 31 anos que não conheci, quanto ao resto... é Fado.

Abraço grande

Sem Naufragar said...

Entendo bem as tuas palavras, indignação e também voto em abulir a cultura do coitadinho. Esta sociedade herdou-a e são poucas as vezes em que a questionamos.
Ainda bem que há casos de sucesso e força para ganhar coragem e enfrentar o "fado", como o Dias refere.
Sei que a mente é poderosa, mas para isso conta e muito a nossa experiência de vida, abertura de espírito e rede social.
A força de cada um de nós é sempre aquele ponto de partida que faz a diferença (para nós e para os outros), mas não só. Sem os outros somos muito pouco.